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Avatar de Brito Guterres

A ver se também opino sobre isso no Ponto de Fuga desta semana . Abc

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Bom dia. Aqui vai um apontamento fraterno, incompleto e provisório. Começo por dizer que, na generalidade, concordo com o texto. Gostaria, no entanto, de discutir o apelo feito aos sindicatos e às redes de organização dos partidos. Vou procurar não me estender.

1. No texto, marcas uma diferença entre a “necessidade de organização” dos sindicatos, e os “espaços de demonstração mais selvagem”. Embora não seja formulado nesses termos, essa formulação acaba por replicar uma (falsa) dicotomia forjada nos já-conhecidos debates entre a espontaneidade e a organização, entendidas como categorias antagónicas, ou, no mínimo, conflituantes. Se a primeira nos aparece como mais “organizada”, é apenas porque ela pressupõe uma normatividade organizacional adstrita ao normal funcionamento da nossa sociedade. Quem esteve nos piquetes (pelo menos no Porto), sabe que a organização realmente existente foi a da pura imagem, mediaticamente mediada, e politicamente executada por sindicalistas, organizados em autocarros, que se deslocaram freneticamente, de um lado para o outro, ao sabor das televisões e dos microfones de lapela. A organização sindical, dita tradicional, é uma organização abstrata, na medida em que trabalha para fins que são alheios à sua ação, que a enquadram e possibilitam. A conversa seria distinta se, por exemplo, os sindicatos tradicionais estivessem dispostos a extravasar a sua função de organização meramente económica, organizando, por exemplo, fundos de greve, espaços temporários de habitação, métodos para suprir situações temporárias de desemprego, entre outros. No entanto, o oposto acontece: os sindicatos justificam a sua ação a partir do interesse nacional e do crescimento económico – basta ver a forma-economicista como pensam as pessoas migrantes. Mas o que significa o “interesse nacional”, no atual contexto? Significa garantir que Portugal consegue apropriar-se de mais recursos que outras nações, que consegue exportar mais mercadorias a preços mais reduzidos, em suma, que consegue triunfar no mercado global. Assim, o sucesso do interesse nacional corresponde, sem contraponto, à adesão irrefletida a práticas predatórias, e, portanto, ao fim de qualquer possibilidade internacionalista. Quando, no meu texto, falo das “condições de possibilidade” da esquerda, é disto que falo. Não há, para o seu programa, nenhum destino feliz no final da ponte. Não é uma questão de Vontade, mas de esgotamento de determinadas condições históricas. Basta pensar o modo como, perante o esgotamento do neoliberalismo, a inflação ressurge – não como ameaça, mas como espectro real -, para perceber que até as singelas reivindicações por aumentos salariais dignos esbarram, hoje, numa barreira objetiva. O passado não volta. Já não há Leviatã que nos salve.

2. Afirmas, no texto, que “as redes de organização dos partidos terão que se entender com a necessidade de parte da população ter uma ação mais direta sobre os acontecimentos que lhes são relevantes localmente”. De facto, gostava que isso acontecesse. Mas, mais do que pensar na putativa disponibilidade dos partidos em compactuar com essas ações, gostaria de refletir sobre se é possível, de todo, que eles o façam. Remeto para o texto de Luís Toledo: “Ao ir a votos, a intenção de cada um dos partidos é a de reproduzir e representar uma identidade partidária e de delimitar fronteiras entre si. Antes de se formarem (ou se pedir para formar) coligações, os partidos têm de garantir que cada um deles é representante de entidades bem-definidas e reconhecíveis, o que é precedido por um longo e constante processo de construção de identidades e fronteiras, dado que habita o quotidiano das políticas autárquica, sindical, estudantil e associativa.” Os partidos, na sua dimensão institucional, não são meras agremiações de interesses políticos, são estruturas materiais com densidades variáveis, com necessidades de financiamento, estratégias internas de formação de quadros, segundo critérios de representatividade, etc. Mais, o espaço no qual se movem, não é neutro. A disputa das instituições não decorre sobre uma superfície lisa aberta à inscrição de significados variáveis: ela tolda e limita a ação, ela força solidariedades, rotinas, gramáticas, ela exige que os partidos percam parte de si para se poderem consolidar enquanto tal. A política (institucional) força os partidos que a ela aderem a tomarem posição. Quando António Filipe disse “eu não me dou com essa gente”, sobre a Greve selvagem, ninguém o forçou a tal: ele desejou dizê-lo, ele acreditou no que disse; em suma, ele piscou o olhos aos seus amigos, nomeando os inimigos ("essa gente"). Quando o PCP, através do Jerónimo, disse que os fundos de greve faziam com que a “greve não fosse honesta”, ninguém o forçou: ele é que, depois de décadas de socialização política, percebeu que um instrumento de auto-organização que não fosse mediado pelo Estado, acabaria por minar as bases sobre as quais assenta toda a proposta política do PCP, acabando por hipotecar a sua própria sobrevivência enquanto partido (questão essa já visível durante o PREC, e na forma como sempre lidaram com os "aventureirismos"). Por isso, volto ao meu artigo anterior. A questão não é se os partidos de esquerda “querem” aceitar os bárbaros e selvagens, a questão é se eles o “podem” fazer sem se dissolverem nesse mesmo ato. Eu acho que não. A esquerda não cruzará o rubicão sem se dissolver, sem deixar de se reconhecer no que fez até aqui. Se o fizerem, serão bem-vindos. Pela minha parte, prefiro não esperar por quem, nas últimas décadas, atuou como força de bloqueio, cooptação e apagamento de tudo quanto mexe. Se não me engano, no manifesto fundador do BE, constava algo como “não esperamos nada do PS e não esperamos pelo PCP.” Hoje, acho que chegou a hora de dizer que nada esperamos do PS, do PCP e do BE. Que não esperamos por eles. Para onde vamos, depois disto? Não sei. Da minha parte, tenho procurado juntar forças a tudo o que mexe, ajudar no que posso, e ver no que dá. É poucochinho, mas é a água que nos chega ao deserto de onde teimamos em não querer sair.

Abraço,

E que se mantenha esta prática constante de crítica-diálogo-ação entre posições que, embora distintas, partilham um mesmo sentido de urgência.

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