Que fazer? Considerações sobre um espaço sem movimento
A primeira volta das Presidenciais, os passos da esquerda e o ponto zero para o futuro.
O caminho até à mesa de voto fez-se sem esperança. A sensação era a de que não mudaria nada no essencial, perante os candidatos e as tendências apontadas como resultado. O ir votar, ato simbólico de resistência na recuperação da nossa democracia, transformou-se num ato despido de significado, porque a ele se reduziu toda a nossa capacidade de marcar diferença. As populações juntam-se para votar, alegram-se com este ou aquele recuo da abstenção, mas caminham numa espécie de torpor que não lhes permite, nesse ato, exercer algum tipo de liberdade. Perante a limitação do voto, no curto quadro de propostas que esta aparente enchente de nomes no boletim de voto tentou iludir, ficamos também mais longe de cumprir com os objetivos da nossa liberdade. O discurso mediático resignou-se numa linha da qual resiste em sair, mesmo perante todas as evidências, não aprendendo com a experiência de colaboração com o caminho que as coisas tomaram. O discurso das pessoas, nas ruas, nos cafés, entregou-se sem pensar a frases feitas e análises distantes da realidade das propostas que poderiam estar em discussão, eximindo-se de qualquer responsabilidade no como sair das consequências do seu apagamento. A estrutura onde nos desenvolvemos, a sociedade, o governo, o país, acomodam-se a uma inevitabilidade que seca qualquer sonho.
Os resultados da primeira volta das Presidenciais não revelam qualquer luta perante o estado a que chegámos. A vitória de António José Seguro e os apoios que este reúne alimentam a ideia de que se pode combater uma excrescência do sistema criado pelo próprio, recorrendo a uma postura que simplesmente evidencia a continuidade da vida na mesma bolha de sempre. Se a postura de André Ventura alimenta o choque perante a sociedade em que vivemos, ela em nada contribui para uma real alteração das condições em que o fazemos, porque em nada atenta contra a organização económica-financeira do país e do mundo. Pelo contrário. Ao chamar para o seu campo a percepção de revolta, Ventura consegue capturar toda e qualquer possibilidade de transformação. Perante isso, a proposta de António José Seguro não é essencialmente diferente da de Luís Montenegro ou Marques Mendes ou da tropa que rodeou Gouveia e Melo. Vende a ideia de que a solução para assegurar o nosso futuro passa por continuar a trilhar o mesmo ponto no caminho sem que dele se possa sair em direção alguma. Encerra-nos na bolha onde continuamente se irão criar novos tumores, de Venturas e sucedâneos, que permitam que a bolha se alimente de uma ilusão de combate. Tranca-nos o futuro sem possibilidade de nos ligarmos, de algum modo, com a nossa liberdade. E perante tudo isto, vale perguntar o que fazer.
Uma análise
Se o plano que o apoio do PCP e do BE ao primeiro Governo do PS de António Costa gerou foi o de secar por completo a relevância da esquerda parlamentar, estas eleições presidenciais apresentam um resultado que deve deixar orgulhosos os ideólogos dessa missão. As candidaturas de António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto contribuíram com erros próprios para esse apagamento. Se o candidato apoiado pelo PCP se antecipou e conseguiu encontrar uma nesga de caminho para se propor como um elemento diferencial a distância do ato eleitoral, a sua campanha e o surgimento de Catarina Martins e de Jorge Pinto e a sua maior predisposição para o tema de ceder passagem a um terceiro candidato (neste caso, Seguro), terraplanaram a relevância de um discurso contraditório com a massa dos cinco elementos que agruparam o topo dos prognósticos e da atenção mediática para a decisão. Este apagamento das esquerdas pode, assim, lamentar-se da obrigação tática de transformar as Presidenciais numa campanha partidária, da sua incapacidade para quadrar estratégias com um elemento que pudesse agrupar um pensamento diverso e de como isso a faz ausentar-se do espaço mediático. Ao mesmo tempo, o medir das possibilidades nesse quadro apenas representa uma confirmação de que qualquer ataque ao estado atual das coisas, que possa realmente colocar em causa as suas estruturas, não se fará dentro da bolha que está determinada a deslocar a “maioria sociológica” em sentido contrário.
Neste quadro, é útil ler uma série de análises publicadas nestes últimos dias. Diogo Duarte refere, à esquerda, um conjunto de “desinteressados de inspirar ou de fazer sonhar com qualquer coisa”. O perfil Tempos Mortos, perante a “incapacidade para questionar a ordem vigente para lá da mera gestão e moralização” clama por “outros modos de habitar o presente e o antagonismo em que nos encontramos”. Pedro Levi Bismarck insiste no rompimento da esquerda com a social democracia, enquanto Pedro Silva cita o perigo de acabarmos despolitizados no processo de centrar a nossa ação na luta contra a extrema-direita, tornando-a central nos nossos dias. Este conjunto de textos releva o problema de base com o qual estamos confrontados. A falta de ar que nos gera o estado atual das coisas, perante governos que atacam os nossos direitos, uma economia que nos tranca esperanças de progresso e uma sociedade cada vez mais concentrada na limitação da divergência gera uma desorientação perante o lugar onde nos decidimos posicionar. A ausência de soluções dentro de um sistema que exclui um posicionamento à esquerda e lhe retira relevância, não pode deixar de nos impor a questão de, uma vez compreendido o diagnóstico, procurar o próximo passo na ação.
Uma proposta
É fundamental colocarmo-nos perante a evidência de que 2026 não pode ser representado como um único bloco onde a transformação das condições políticas gerou uma quebra de efeito e representatividade das organizações e lutas da esquerda, antes se apresenta como um caleiscópio de situações que convivem e se misturam na nossa sociedade e nos nossos dias. Encarar o campo de voto da população como uma valorização da sua inteligência e conhecimento não faz sentido, porque na verdade as opções que cada um faz prendem-se com a utilização do seu posicionamento de um ponto-de-vista individualista, sem pensar nas consequências. Esse incentivo ao individual e a forma como capta seguidores gera uma enorme incapacidade de resposta perante as opções do sistema, uma leitura que se perde nesta diversidade de posições em que nos encontramos. Se alguns de nós podem estar, neste momento, a questionar o futuro da esquerda perante as transformações tecnológicas e as ofensivas de quem tem maior capacidade para financiar as tendências do mundo, outros vivem 2026 no espaço onde procuram estabelecer o seu quadro de independência familiar, tal como outros resistem em quadros de análise e de visões de um mundo pré-internet. Tudo isso existe e é essa profusão de possibilidades perante a análise do hoje que gerará, cada vez mais, um distanciamento entre a realidade e a capacidade da população agir sobre ela.
O passo a tomar inclui, necessariamente, recuperar um momento de campo aberto para recriar uma ação que seja sustentável para largas massas da população. A necessidade de organização dos sindicatos tradicionais terá que saber conviver com os espaços de demonstração mais selvagem da insatisfação com as leis laborais, assim como as redes de organização dos partidos terão que se entender com a necessidade de parte da população ter uma ação mais direta sobre os acontecimentos que lhes são relevantes localmente. O caminho para uma unidade de conversa está completamente limitado, quer nas suas ambições, quer nas suas possibilidades. Mas o entender do nosso posicionamento no campo mais aberto vai permitir-nos entender melhor todo o potencial de que estamos rodeados e desprender um pouco mais a nossa desesperança perante o fim da esquerda que nos vendem. A possibilidade de revolução passa por ser um caminho de aceitação, mais do que uma prisão ao deixar arder e ao desfazer do pouco chão onde ainda pisamos. Compreender que o momento presente é uma sobreposição de todos os momentos do passado com os que se preparam para o futuro e que estes estão numa tensão contínua para testar a resistência de qualquer proposta que surge dentro de um campo alargado da esquerda - curiosamente um exercício que nos é bastante observável na constante luta de tendências de domínio dos jogos desportivos - é uma espécie de ponto zero onde todos teremos que recomeçar.





A ver se também opino sobre isso no Ponto de Fuga desta semana . Abc
Bom dia. Aqui vai um apontamento fraterno, incompleto e provisório. Começo por dizer que, na generalidade, concordo com o texto. Gostaria, no entanto, de discutir o apelo feito aos sindicatos e às redes de organização dos partidos. Vou procurar não me estender.
1. No texto, marcas uma diferença entre a “necessidade de organização” dos sindicatos, e os “espaços de demonstração mais selvagem”. Embora não seja formulado nesses termos, essa formulação acaba por replicar uma (falsa) dicotomia forjada nos já-conhecidos debates entre a espontaneidade e a organização, entendidas como categorias antagónicas, ou, no mínimo, conflituantes. Se a primeira nos aparece como mais “organizada”, é apenas porque ela pressupõe uma normatividade organizacional adstrita ao normal funcionamento da nossa sociedade. Quem esteve nos piquetes (pelo menos no Porto), sabe que a organização realmente existente foi a da pura imagem, mediaticamente mediada, e politicamente executada por sindicalistas, organizados em autocarros, que se deslocaram freneticamente, de um lado para o outro, ao sabor das televisões e dos microfones de lapela. A organização sindical, dita tradicional, é uma organização abstrata, na medida em que trabalha para fins que são alheios à sua ação, que a enquadram e possibilitam. A conversa seria distinta se, por exemplo, os sindicatos tradicionais estivessem dispostos a extravasar a sua função de organização meramente económica, organizando, por exemplo, fundos de greve, espaços temporários de habitação, métodos para suprir situações temporárias de desemprego, entre outros. No entanto, o oposto acontece: os sindicatos justificam a sua ação a partir do interesse nacional e do crescimento económico – basta ver a forma-economicista como pensam as pessoas migrantes. Mas o que significa o “interesse nacional”, no atual contexto? Significa garantir que Portugal consegue apropriar-se de mais recursos que outras nações, que consegue exportar mais mercadorias a preços mais reduzidos, em suma, que consegue triunfar no mercado global. Assim, o sucesso do interesse nacional corresponde, sem contraponto, à adesão irrefletida a práticas predatórias, e, portanto, ao fim de qualquer possibilidade internacionalista. Quando, no meu texto, falo das “condições de possibilidade” da esquerda, é disto que falo. Não há, para o seu programa, nenhum destino feliz no final da ponte. Não é uma questão de Vontade, mas de esgotamento de determinadas condições históricas. Basta pensar o modo como, perante o esgotamento do neoliberalismo, a inflação ressurge – não como ameaça, mas como espectro real -, para perceber que até as singelas reivindicações por aumentos salariais dignos esbarram, hoje, numa barreira objetiva. O passado não volta. Já não há Leviatã que nos salve.
2. Afirmas, no texto, que “as redes de organização dos partidos terão que se entender com a necessidade de parte da população ter uma ação mais direta sobre os acontecimentos que lhes são relevantes localmente”. De facto, gostava que isso acontecesse. Mas, mais do que pensar na putativa disponibilidade dos partidos em compactuar com essas ações, gostaria de refletir sobre se é possível, de todo, que eles o façam. Remeto para o texto de Luís Toledo: “Ao ir a votos, a intenção de cada um dos partidos é a de reproduzir e representar uma identidade partidária e de delimitar fronteiras entre si. Antes de se formarem (ou se pedir para formar) coligações, os partidos têm de garantir que cada um deles é representante de entidades bem-definidas e reconhecíveis, o que é precedido por um longo e constante processo de construção de identidades e fronteiras, dado que habita o quotidiano das políticas autárquica, sindical, estudantil e associativa.” Os partidos, na sua dimensão institucional, não são meras agremiações de interesses políticos, são estruturas materiais com densidades variáveis, com necessidades de financiamento, estratégias internas de formação de quadros, segundo critérios de representatividade, etc. Mais, o espaço no qual se movem, não é neutro. A disputa das instituições não decorre sobre uma superfície lisa aberta à inscrição de significados variáveis: ela tolda e limita a ação, ela força solidariedades, rotinas, gramáticas, ela exige que os partidos percam parte de si para se poderem consolidar enquanto tal. A política (institucional) força os partidos que a ela aderem a tomarem posição. Quando António Filipe disse “eu não me dou com essa gente”, sobre a Greve selvagem, ninguém o forçou a tal: ele desejou dizê-lo, ele acreditou no que disse; em suma, ele piscou o olhos aos seus amigos, nomeando os inimigos ("essa gente"). Quando o PCP, através do Jerónimo, disse que os fundos de greve faziam com que a “greve não fosse honesta”, ninguém o forçou: ele é que, depois de décadas de socialização política, percebeu que um instrumento de auto-organização que não fosse mediado pelo Estado, acabaria por minar as bases sobre as quais assenta toda a proposta política do PCP, acabando por hipotecar a sua própria sobrevivência enquanto partido (questão essa já visível durante o PREC, e na forma como sempre lidaram com os "aventureirismos"). Por isso, volto ao meu artigo anterior. A questão não é se os partidos de esquerda “querem” aceitar os bárbaros e selvagens, a questão é se eles o “podem” fazer sem se dissolverem nesse mesmo ato. Eu acho que não. A esquerda não cruzará o rubicão sem se dissolver, sem deixar de se reconhecer no que fez até aqui. Se o fizerem, serão bem-vindos. Pela minha parte, prefiro não esperar por quem, nas últimas décadas, atuou como força de bloqueio, cooptação e apagamento de tudo quanto mexe. Se não me engano, no manifesto fundador do BE, constava algo como “não esperamos nada do PS e não esperamos pelo PCP.” Hoje, acho que chegou a hora de dizer que nada esperamos do PS, do PCP e do BE. Que não esperamos por eles. Para onde vamos, depois disto? Não sei. Da minha parte, tenho procurado juntar forças a tudo o que mexe, ajudar no que posso, e ver no que dá. É poucochinho, mas é a água que nos chega ao deserto de onde teimamos em não querer sair.
Abraço,
E que se mantenha esta prática constante de crítica-diálogo-ação entre posições que, embora distintas, partilham um mesmo sentido de urgência.