Privados do Estado
Nada está dimensionado para o que nos acontece nestas semanas, um culminar de escolhas que foram feitas, conscientes do lugar onde estamos a chegar.
Não foi um desastre natural, foi um desastre estrutural. Passaram os dias depois da tempestade, vieram as depressões, manteve-se a chuva. O território exposto a um desafio que recoloca a forma como fazemos questões, como planeamos as coisas, como nos preparamos para o dia seguinte. Na forma como se faz uma aldeia, uma vila, uma cidade, uma região, um país, está todo um processo de conhecimento acumulado, questionado e analisado, que se vai transformando ao longo dos anos em escolhas, regras, decisões e leis que coabitam connosco nesse espaço. Uma noção de vida em sociedade que se dilui no individualismo de quem clama por menos Estado, na ilusão de uma segurança financeira que julgam poder safá-los no momento do desastre coletivo. O que o vento e a chuva de 2026 demonstram é que não restam fortalezas inexpugnáveis perante as forças da natureza e o quadro de desinvestimento público, alimentado há décadas por políticas que apresentam resultados financeiros sem o conformarem com a realidade da vida daqueles por quem devem zelar, para o qual fomos empurrados.
Os mesmos que defendem o desinvestimento público aparecem, entretanto, a protestar pela ineficiência do Estado. Não precisam sequer de mudar de máscara, dizem-no com as mesmas caras e as mesmas posturas que se convencionaram para quem fala em nome do seu financiador, meninos de mão, cães com trela. Um discurso repetido de forma labiríntica pelos vários meios de comunicação que fazem da diversidade possível um unanimismo que nem respeita outros pontos-de-vista para a simples nota de rodapé da referência. Qual é a solução? A solução é, sempre, privatizar. Os privados fazem-no melhor. Sobretudo porque, quando falham, o Estado responde. Assim foi com os bancos, com seguradoras, com os próprios eleitos que mais tarde aí encontram forma de se manterem do lado do poder. A forma como o Estado não evita a sua sobrecarga por estar exposto a decisões que não interessam à maioria dos seus “acionistas” (a população), mas a uma mínima percentagem destes, complica a sua resposta em tempos de funcionamento normal, devastando-o em momento de resposta a crises. Em Portugal, esta semana, percebe-se isso nos terrenos que deslizam, desfazendo estradas e condutas de água, na rede elétrica que falha, nas redes de comunicação que demoram a ser repostas e mantém populações ainda mais isoladas. A privatização do Estado por interesses que o destroem bateu-nos à porta e agora vive nas nossas casas.

“Imaginemos só que as 63 recomendações da Comissão Europeia dirigidas aos Estados nacionais nos anos antes da pandemia, entre 2011 e 2018, para que reduzissem ainda mais os serviços nacionais de saúde e apoiassem a provisão privada, tinham sido seguidas até às últimas consequências, imaginem que já não tínhamos um Serviço Nacional de Saúde ou uma cultura de saúde pública associada, aquela que tomou a vacinação em massa uma rotina civilizacional. Imaginem que todos os juristas se tinham conformado com o fim de um Estado social que continua a ser imensamente popular, de tal forma que foi preciso uma troika estrangeira e um governo entusiasticamente subordinado para tentar dar-lhe o golpe de misericórdia, tentando reduzir o Estado ao tal comité para os negócios de uma certa burguesia, incluindo um bárbaro capitalismo da doença. Valeram-nos as lutas defensivas pela sobrevivência institucional, ainda que demasiado circunscrita, de um princípio socialista: de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades. A imaginação é necessária para pensar nas alternativas socialistas […]”
João Rodrigues (Ladrões de Bicicletas), A Economia Política do Antifascismo e outros ensaios, Página a Página, 2025.
Imaginação em tempo de desastre
É quando a normalidade é colocada em causa que nos apercebemos das fundações desse normal que pouco tem de natural. As nossas formas de organização, a nossa consciência política e social, a nossa pertença a um lugar são construções que estão em constante tensão e que encontram na nossa resposta, e na resposta dos outros, os meios para se continuarem a sustentar. A pandemia e o pensamento do “vai ficar tudo bem” foi sucedido, em Portugal, por uma convulsão política que resulta muito da recusa de uma parte do eleitorado em aceitar a normalidade que não lhes surge como suficiente. Não há propriamente um plano ou uma ideia de como contrariar esse destino, mas contrariá-lo é necessário. Essa falta de ar que atinge uma parte da população seguramente que será aumentada por um episódio como a resposta aos fenómenos naturais extremos a que o país está cada vez mais exposto. Enquanto se desespera perante a ausência uma estrada em condições para levar um filho à escola ou chegar ao trabalho, com falta de água e constantes quebras de energia, com dificuldade de comunicação, alimenta-se nessa falta a distância para o mundo que se via como nosso. Será que no meio do desastre teremos espaço para clamar pela imaginação?
O realismo cru da destruição alimenta mais destruição. O bom selvagem tem fome, não de se alimentar, mas de uma desgraça que atinja os outros. Fala-se com o coração na boca sem compreender que da nossa boca sairá também o cadafalso do que defendemos. Caminha-se assim, passo a passo, para deixar que o mundo seja só uma reação a quente perante o inesperado. A necessidade de nos afastarmos para olhar do lado de fora é um caminho que tem de ser feito com tempo. Comecemos ontem, então. Porque a realidade do agora já só é feita de adversidades. Enquanto nos congratulamos com um ensaio democrático na ida às urnas para evitar um mal maior, na bolha discute-se incessantemente as implicações da vida apenas no restrito grupo do poder. Há uma certa bonomia em acreditar que um Presidente da República, um Primeiro-Ministro ou os dois grandes partidos do centro saberão como solucionar um país em convulsão. Os governantes não foram feitos para serem aceites, esqueceu-se já a elite que ainda fala dessa tribuna. Não nos atrasemos a fugir do festim das surpresas desagradáveis infinitas, nem nos convençamos de nada, porque também essa a essa fuga chegaremos tarde.
“The poetic axiom, like the mathematical axiom, is illuminating because it is fragile and inescapable, obscure and revealing. In both instances the prospective system accepts the accident and grasps that in the future it will be transcended. Science transforms its languages; poetry invents its tongues. For neither is it a question of exploring, but one, rather, of going toward a totality that is unrealizable, without being required to say where they will come togheter - nor even that they have any need to do so.”
Édouard Glissant, Poetics of Relation, Penguin Books, 2025 (edição original de 1990)



