Até amanhã!
Nunca. O tempo todo. Entre ciclos que se desenvolvem, fronteiras do que começa e acaba sempre esbatidas pelos acontecimentos.
Por vezes o mundo parecia ir numa onda em exato sentido contrário do que eu vejo. Perante isso, crescia em mim, em forma de ansiedade, a tentação de passar o tempo a explicar-me. A verdade é que, por agora, não quero explicar nada. Dá-me um certo conforto guardar coisas para mim, falar e escrever só quando realmente me apetecer.
Quando nos propõem um acalmar perante o mundo, para que não seja tão violenta a maneira como com ele lidamos, esquecem-se de que a violência vem, sobretudo, do lado de lá. Na maneira como se limitam toda e qualquer expressão de individualidade, na necessidade de criar rebanhos de seguidores, de afogar vozes dissonantes, na constante criação de um quadro de normalização onde temos de acabar por nos aceitar. A violência, hoje, está em aceitar o que nos obrigam a fazer, não em reagir violentamente perante esse quadro que nos tenta aprisionar.
Dizer “até amanhã” sem ter a intenção de nos vermos amanhã, sem fazer ideia se nos vamos ver amanhã. Deixar essa porta aberta, entretanto, mesmo que não seja para eu entrar. É através da língua que nos revelamos, os hábitos que criamos, as dificuldades que sentimos, a forma como mostramos o que estamos a ver, como estamos a pensar. Por isso, na maior parte do tempo, hesitamos e balançamo-nos entre entender o que as palavras querem dizer e o que as palavras querem mesmo dizer. Por vezes, estamos a dizer a coisa certa, mas ela chega ao outro de forma errada. A valorização das expressões não se fixa em unanimidade. Não são problemas de expressão, é a riqueza da própria língua que se faz de ponte, mas também cai.
Se bem me lembro
Acordei a pensar onde ia comprar gelo, onde podia estacionar o carro. Tomei um duche rápido, dei com a cara na porta fechada do supermercado, andei pelas ruas vazias da cidade como se soubesse o que estava a fazer. O gelo havia esgotado na cidade. Nos arredores da cidade. Na estação de serviço da autoestrada. Entrei em Lisboa e acabei por comprar dois sacos, logo dispostos dentro da geladeira. O gelo haveria de durar o dia todo, quase congelando as duas garrafas de cerveja que sobreviveram à tarde de sol, às horas no carro, à viagem de volta, e que acabei por beber, em pé na cozinha, antes de ir para a frente da Câmara Municipal esperar os jogadores.
Não estava a pensar no jogo, estava a pensar em tudo o que haveria de acontecer até chegar à hora do jogo. As coisas encaixam-se umas nas outras. Havia muita gente na mata do Jamor, foram muitos abraços, muitos apertos de mão, muitas palavras trocadas. Às tantas, dei um abraço ao Noel e disse-lhe “quando aquela bola entrar, pá, quando aquela bola entrar”, enquanto o apertava nos meus braços. A bola entrou bem cedo. Lembro-me de estar a gritar impropérios e a bater com uma pequena bandeira nos bancos da bancada. Lembro-me de pensar que tinha passado um mês inteiro muito confiante do que ia acontecer, mas de só me apetecer mesmo ver a equipa entrar em campo, ali, no Estádio Nacional, onde chorei a primeira vez que trabalhei numa final da Taça.
Desta vez não chorei. A meio da primeira parte já não tinha voz. Nunca tive medo. Desde os vinte minutos, quando o Pedro Gonçalves atirou por cima depois de um passe magistral do Morita, sabia que o jogo estava ganho. 120 minutos parece muito tempo, mas só quando o jogo não nos interessa. Ali, tudo ia fazendo sentido. Até ao momento do penálti do Stopira. Até ao final do jogo. Até tudo o que depois se seguiu, com o corpo meio anestesiado e a cabeça sem saber bem o que pensar. Fiquei assim muito tempo, continuo talvez assim. As coisas podem não parecer-nos reais e mesmo assim estão a acontecer. E se vou escrevendo, é para tentar fixar uma primeira versão das coisas como elas me aconteceram. Se bem me lembro.
A emissão continua dentro de momentos
Esta foi uma boa semana para perceber como, havendo espaço para se falar sobre um determinado tema, esse espaço é, ainda assim, manipulado para que o assunto caiba na fórmula pré-determinada para se falar de tudo. O meio está acima da mensagem. Não haverá melhor exemplo do que a ideia de termos horas de emissão sobre os efeitos de um resultado no derrotado, enquanto se continua sem muito dizer sobre o vencedor. Usar exemplos do desporto faz-nos perceber muito melhor o mundo. Ficamos satisfeitos com umas capas de jornais, com a reação das pessoas que, na rua, contam a forma como viveram o dia único. Não refletimos nada sobre o que aconteceu em campo, sobre o que levou a que todos estes resultados fossem possíveis, sobre os efeitos que uma vitória desportiva pode ter para o país, para a região, para a cidade.
Haverá tempo para isso, nas pequenas bolhas que felizmente se criam para pensar em coisas que importam. Portanto, entre o espaço para falar em público e a forma como o utilizamos, está uma boa clarificação sobre as maneiras de dominar esse espaço e não acabarmos a falar só por falar. Tinha aqui nas notas do telemóvel, há muitos meses, um curto excerto sobre a eventualidade de encontrar pessoas certas em tempos errados. Durante estes meses tentei enfiar esta nota num dos textos que escrevi. Hoje, quando me apercebo que chega ao fim esta série de artigos, o que me ocorre é que nunca ninguém chega no tempo errado. O tempo somos nós que o fazemos. É o tipo de reconhecimento que talvez me prepare para o que aí vem. Até amanhã.




Que texto bonito. Parabéns outra vez!