Aceitar o erro
Estamos sempre a errar e encontrar forma de o explicar apresenta-se bem mais difícil do que poderia, à partida, parecer.
“Ainda nos estamos a conhecer”, disse Rodrigo Zalazar na flash interview no Estádio José Gomes, depois do Sporting ter empatado com o Estrela da Amadora. O valor do humano está sempre a regressar ao que vemos nos campos de futebol, porque a qualidade não se mede de uma forma constante. Uma equipa ser mais poderosa, ser melhor, não é um elemento fixo no decorrer de noventa minutos, muito menos ao longo de toda uma temporada, e depois de uma autêntica revolução no onze leonino, a forma como o Sporting tropeçou no primeiro jogo oficial não é propriamente uma surpresa, parece apenas decorrer do facto do futebol ser jogado por homens que pensam e não por qualidades algoritmicas lançadas num programa computadorizado.
Rui Borges focou noutra direção. Para o treinador do Sporting, o problema passou pelos jogadores que foram sendo chamados à partida, os suplentes utilizados, que não terão demonstrado a atitude esperada a um jogador do clube. Houve uma frase do técnico que apontava para a realidade dos factos, embora ele a tenha proferido como quem tenta escapar deles. “O momento em que eles crescem é quando fazemos as cinco substituições”, na cabeça do técnico, parecia referir-se a questões físicas. No entanto, sumarizava o que aconteceu em campo, a partir do momento em que o Sporting foi ao banco, não mais conseguiu fazer um remate. Todas as trocas do técnico leonino fizeram a equipa pior, enquanto Pepa, do lado do Estrela, melhorava a equipa com elementos que foram preponderantes para o resultado final. Por vezes, os factos estão mesmo ali à nossa frente para explicar onde falhamos. Mas aceitar que falhamos é toda uma outra história.
Quem é capaz de mudar sozinho?
“Com público, podíamos estar a levar três ou quatro ao intervalo”. Bruno Pinheiro, treinador do Académico de Viseu, não podia ter sido mais sinceramente dramático quanto às dificuldades da sua equipa na jornada inaugural da Liga Portuguesa. Um Estádio da Luz vazio, no entanto, permitiu aos viseenses irem corrigindo posições, acalmando os jogadores mais expostos, o que junto de uma boa exibição do seu guarda-redes e de um Benfica muito perdulário valeram uma vida que seria depois multiplicada com golos e um ponto. A importância do público nunca é tão clara quanto na sua ausência. E Pinheiro sublinha o ponto - o da comunicação que é possível quando não há o ruído de milhares presentes nas bancadas - em que maior diferença se pode fazer. Jogar os grandes jogos é ter a capacidade de o fazer sem instruções que visem retificar os erros, saber melhorar sem ouvir o que diz o treinador. Quantos de nós o conseguem fazer sozinhos?
Quanto ao que aconteceu com o Benfica, não foi propriamente um eclipse. Trata-se de uma equipa a crescer com as ideias de um novo treinador, a viver um momento competitivo atípico pela participação nas qualificações para a Liga Europa, sem ter ainda a consistência para segurar um jogo sem cometer deslizes que vêm sendo uma presença constante nas últimas temporadas, independentemente do treinador. Para Marco Silva, o trabalho a fazer é o de uma construção mental que, fundamentalmente baseada nos mesmos jogadores, possa permitir o desabrochar de um coletivo que o Benfica não tem sido capaz de apresentar. Como o próprio treinador reconheceu, criando um elevado número de oportunidades, os golos acabarão por chegar. O que se pode mudar já é a forma como a equipa comete erros e sofre golos. Não sendo nestes jogos europeus que essa resistência é colocada à prova, mas numa Liga Portuguesa onde cada rival sabe bem melhor onde tocar na ferida.
Um curto intervalo de felicidade
A Liga Portuguesa é como ir à praia em Santa Cruz. Há que estar lá nos momentos certos, porque a média de qualidade tende a ser baixa (não é o caso da praia neste ano atípico, onde a ausência de vento, o calor e até a temperatura da água tornam o litoral atlântico uma verdadeira costa mediterrânica). Aconteceu esta semana com a primeira parte do Santa Clara - Nacional. Quarenta e cinco minutos de puro entusiasmo entre equipas que dificilmente estarão entre as melhores da competição. Gonçalo Paciência, que nunca foi um goleador, marcou por duas vezes e deu uma vantagem aos açorianos que até poderia ter sido aumentada. O Nacional reduziu através de um penálti e de um grande golo de Baeza para se chegar ao intervalo com a sensação de estar perante um grande jogo de futebol. A segunda parte acalmou o entusiasmo, mas o bem estava feito. E quando a vida nos permite provar assim, inesperadamente, um doce sorriso perante bom futebol, nós aproveitamos e adormecemos mais felizes. A vida segue por aí.




adorei a comparação coma Praia de Santa Cruz